Numa terra perdida no meio da Terra, nasceu, numa noite fria, um rapaz. Era um rapaz normal, duas pernas, dois braços e um coração que se iria revelar enorme.
Cresceu, calcorreando as pedras daquela Beira, descalço e pobre, vivendo no tempo em que uma sardinha davam para uma família de 7 pessoas.
Quando ia à vila, ia descalço e sujo, por montes e valados, levava a roupa num saco, para não se sujar e trocava quando lá chegava.
O rapaz cresceu e foi para África. Terra quente, de desafios desconhecidos. Trabalhador como a vida o tinha obrigado a ser, começou a abrir o seu negócio. Uma loja. Duas lojas. Três lojas. Duzentas lojas. Entretanto chegou a sua família e os filhos começaram a aparecer. Um, dois, três, quatro, cinco. Num fôlego a casa cresceu e a guerra estalou. ..
Embarcou, então para as origens de sua esposa, perdendo tudo aquilo que anos e anos de trabalho tinham criado. Fizeram-se as contas e ainda deu para comprar uma casita. E apareceram os filhos seis e sete. Entretanto, com os trocos que sobraram da casita, construiu-se uma Escola.
Era uma escola criada para educar uma cidade e uma região. E Alferes Fernando, sem nunca ter ido à tropa, levantava-se de madrugada para ir buscar os alunos que não tinham transporte para estudar.
E como a vida continuava, indiferente aos trabalhos que apareciam, apareceram os filhos dos filhos. Do um até ao quinze. E os filhos dos filhos dos filhos. E Alferes Fernando era pai, avô e bisavô. E, mesmo assim, ainda conseguia ir à pesca, fazer queijo fresco pela manhã e sofrer muito, muito, muito pelo seu Glorioso.
Treinado pela prática da sua infância, conseguiu fugir aos anos com muita ligeireza. No entanto, quando as pernas começaram a fraquejar, tropeçou e caiu. Duas vezes. Com paciência e muito amor e carinho tentou ganhar o balanço que lhe faltava para acabar a corrida da sua vida. Conseguiu, nunca se deixando derrotar pelos "até logo" que faziam aparecer os anjos no céu.
Num dia destes, Alferes Fernando tirou as divisas. Colocou a farda de lado. Sorriu. Dormiu e descansou.
Por tudo, pela inspiração, orgulho e educação. Pelos genes, valores e louvores, digo o meu grande, grande obrigado.
E choro a saudade.
10.08.1912 - 28.12.2009
That was absolutely beautiful.
ResponderEliminarI'm sure he's so proud of you. Keep living up to his values, make the best of everything and honor his memory.
Embora não acredites em anjos, eu tenho fé que lá estão para olhar por nós. E mesmo que seja um até já prolongado, nunca se trata de um adeus.
Keep strong.
G.x